20.5.16

Dica de Leitura: Objetos Cortantes

Por Tico Menezes 

Autora: Gillian Flynn
Editora: Intrínseca 
ISBN: 9788580576580
Ano: 2015 
Páginas: 254 
Classificação:  (Excelente) 
Onde comprar: Saraiva | Cultura | Submarino
  
O que é assustador para você?

Alguns dirão que monstros, fantasmas e seres sobrenaturais são as coisas mais assustadoras da ficção, bem, Gillian Flynn – autora de “Garota Exemplar” – diz que o ser humano e toda a complexidade de seu psicológico pode aterrorizar gerações de forma que fantasma nenhum jamais imaginou ser possível.

Objetos Cortantes” é o livro de estreia de Gillian Flynn, autora consagrada com três obras grandiosas publicadas no Brasil pela Editora Intrínseca e adaptadas para o audiovisual – “Garota Exemplar” foi um dos filmes mais impactantes de 2014, “Lugares Escuros” também foi aplaudido nos festivais em que estreou e Objetos Cortantes” ganhará uma série de 8 episódios pela HBO com previsão de estreia para 2017. A autora trabalha com as possibilidades advindas de traumas e desejos, dos mais simples e comuns aos mais complexos, o que por si só, já torna necessário que seus personagens sejam bem construídos no decorrer da trama, com diversas camadas e uma boa dose de amargura com o mundo em que vivemos. Essa escolha revela uma ousadia pouco vista nos escritores da nossa geração, pois exige muito estudo e comprometimento para que nada soe raso ou inverossímil. Pois bem, “Objetos Cortantes” é um baita livro de estreia que, visto o sucesso que as outras obras alcançaram, mostrou-se uma promessa daquelas que não esperam muito para se cumprir.

A protagonista é a jornalista investigativa Camille Preaker, que escreve para o Chicago Post e luta para superar – e esconder – seu vício em se automutilar quando se sente mal sobre algo que fez ou pensou. Seu editor e amigo pessoal, numa necessidade urgente de visibilidade para o jornal, apresenta a Camille um caso não-resolvido de assassinato de uma criança em Wind Gap, pequena cidade no interior do Missouri, que ainda não foi coberto por nenhum jornalista e pode ser uma das grandes matérias de sua equipe. Camille é designada para a missão porque foi nascida e criada em Wind Gap e isso, supostamente, deveria ajudá-la a conseguir as informações com certa facilidade. Porém, a jornalista não tem um bom relacionamento com a mãe – elas não se falavam há 5 anos – e mal conhece a meia-irmã, Amma, que tem a mesma idade da vítima do caso. Quais os efeitos que retornar para a cidade onde cresceu por causa de algo tão horrível, rever rostos de seu passado conturbado e retomar laços que abandonou para se sentir melhor terão em Camille? E quanto ao caso, quem na pacata cidade seria capaz de um crime assim?

Toda e qualquer sinopse sobre “Objetos Cortantes” não fará jus à profundidade da trama e de seus personagens. Cada olhar é suspeito, cada fala deve ser lembrada, cada demonstração de afeto ou desafeto deve ser levada em conta como algo a ser reportado, isso sem falar nas divagações de Camille, relembrando seu passado de erros e atos inconsequentes, revivendo temores e tristezas e procurando não se envolver emocionalmente ainda mais do que o esperado.

Gillian Flynn cria uma atmosfera claustrofóbica, que faz com que o leitor sinta-se pisando em ovos quanto a cada acusação feita mentalmente, ficando indeciso quanto aos sentimentos despertados pelos personagens. Empatia, pena, raiva? Não dá para confiar de olhos fechados em ninguém. Mesmo Camille, que é a narradora, surpreende o leitor com sua força ou fraqueza em determinadas situações e declarações repletas de opiniões pessoais baseadas em nada mais do que sua própria experiência.

A estória é, por si só, interessante a ponto de querermos levar a leitura até o final, mas demora a engatar devido às detalhadas introduções e memórias que cada rosto do passado de Camille evoca. Não que isso seja um ponto negativo, mas um leitor acostumado à tramas infanto-juvenis em que 20 páginas apresentam e desenvolvem o mistério talvez recue e repense sua vontade de se aprofundar nesse universo sujo, doentio e grotesco que a simpática e familiar Wind Gap mascara.

Apesar de surpreendente, o final parece um tanto corrido em comparação com o desenvolvimento da trama, mas nada que tire o impacto da surpresa. Nada de “bela, recatada e do lar", Gillian Flynn é corajosa, ousada e talentosa. Com pontuais passagens sobre a arrogância masculina e a cegueira religiosa de comunidades preconceituosas, “Objetos Cortantes” encontra tempo para acusar o sistema educacional e policial dos Estados Unidos de negligência e comodismo, criticando a alienação e a carência que leva alguém a pisar em cima de quem for para ter seus 15 minutos de fama.

Forte, impactante e necessário, “Objetos Cortantes” é o romance de estreia que muitos autores desejariam ter e no qual tantos outros se inspiram.

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4 Comentários

  1. esse livro está na minha wishlist faz um bom tempo e tenho certeza, por cada resenha que li, que é um livro que eu vou gostar muito.
    não vejo a hora de poder ler. :)
    muito boa a tua resenha, moço!

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  2. Não imaginava que fosse um livro tão profundo. Gostei muito da resenha! =]

    Contadora de Histórias

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  3. Olá!
    Já ouvi falar muito bem desta autora, porém ainda não tive a oportunidade de ler nenhuma obra dela. Os livros estão na minha lista de desejados, só esperando o momento em que eu vou poder tê-los. Ótima indicação.

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  4. Sempre quis ler esse livro, mas nunca me sobrou dinheiro suficiente para comprá-lo, ele parece ser um livro ótimo, espero ler ele logo
    Abraço!!

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